As vaias, a classe média e a perspectiva de mudança na sociedade
A classe média em crise e a esquerda social-democrata em uma encruzilhada
Dora Kramer, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, foi muito transparente no seu comentário no dia 18 sobre as vaias ao presidente Lula na abertura dos Jogos Panamericanos: a classe média está orfã de representação política e passou a agir na base do "esperneio". Kramer, conservadora como sempre, apela aos partidos conservadores para se apresentarem como alternativas viáveis para este setor.
Mas a culpa não é da turma da direita. Há, de fato, uma crise na classe média brasileira. Uma classe que se formou na perspectiva de comprar direitos como objetos de consumo (escola privada, saúde privada, previdência privada) e que passou a agir politicamente no sentido da esfera pública garantir seus privilégios privados, nos quais se incluem estes objetos que deveriam ser garantidos como direitos.
Por isto, é uma classe que esperneia para pagar impostos e principalmente quando governantes decidem investir prioritariamente na periferia. Vide o caso da construção dos CEUs nas periferias de São Paulo pela prefeita Marta Suplicy que foram criticados pelo seu "alto custo" que foi inferior, por exemplo, a reforma da "Sala São Paulo" na Estação Júlio Prestes, espaço cultural destinado a exibição principalmente de música erudita para deleite da pequena burguesia que sonha em viver em uma capital européia.
Acontece que os recursos vão escasseando, a miséria teima em continuar existindo e diante disto fica cada vez mais difícil administrar este conflito por recursos. Por isto, há uma tendência da classe média cada vez mais ir para a extrema direita e defender propostas de cunho nazi-facista, explícita ou implicitamente. Isto explica o comportamento dos jovens da Barra da Tijuca na agressão a trabalhadora Sirley sob o argumento de que achavam que ela era uma "prostituta".
O grande dilema das esquerdas de caráter social-democrata, como o PT, é que se estreitam as possibilidades de construir uma aliança política com este segmento da classe média, mesmo aquela mais intelectualizada (vejam o crescimento de posturas preconceituosas e nazistas nas universidades, até mesmo em pessoas que se afirmam ser de esquerda, quando se trata de colocar propostas de repartir o bolo, como é, por exemplo, as propostas de cotas nas universidades ou ainda a presença de afrodescendentes no corpo docente e discente).
A esquerda precisa se repensar para se apresentar como alternativa não para todos, mas para aqueles que precisam de uma alternativa de sociedade em que a lógica da vida esteja acima da lógica do consumo.
Escrito por Dennis às 18h20
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