Blog do DENNIS


O que sobra para FHC, falta para Paulo Freire

O escritor Bertolt Brecht disse certa vez: "pobre do povo que precisa de heróis". Mas, no caso do Brasil, mais pobreza ainda quando não reconhece os seus verdadeiros heróis. As tradições de povos antigos da Guiné diziam que após a morte, o único legado do ser humano é o seu nome - que simboliza a trajetória e o que foi feito na sua passagem na Terra. Aqui os nomes com significados reais são esquecidos.
Falo isto para lembrar o nome de uma das personalidades mais marcantes do Brasil: o educador Paulo Freire. Reportagem da edição desta semana da revista Carta Capital mostra que na Rua Cerro Corá, no Alto da Lapa, funciona a biblioteca do Instituto Paulo Freire que reúne todo o material deste grande educador e pensador brasileiro. Inclusive originais da grande obra de Freire, Pedagogia do Oprimido. Em tempos que se discute a importância da educação, que todos os políticos da extrema-esquerda à extrema-direita são unânimes em destacar a importância da educação, esta biblioteca recebeu no primeiro semestre deste ano, apenas 118 visitantes - e, pasmem, a metade estrangeiros.
Dirigido pelo pedagogo Moacir Gadotti, amigo de Freire, uma equipe do Instituto Paulo Freire está digitalizando a obra do grande pensador brasileiro. Problema? Falta de verbas. As mesmas verbas que são abundantes para o projeto do Instuto Fernando Henrique Cardoso que, com apoio da Lei Rouanet e da Sabesp - isto mesmo, parte das contas de água e esgoto que estamos pagando está indo para o refúgio dos tucanos paulistas - está digitalizando a obra do sociólogo-presidente-pop que escreveu "grandes obras", como aquela que "descobriu" que o Brasil se desenvolvia mantendo a dependência econômica ou aquela outra que dizia que os africanos escravizados no período da colonização não eram sujeitos capazes de mudar a situação, porque eram "objetos".
Em 1989, quando era monitor do programa de Educação de Adultos, na prefeitura de São Paulo, fui obrigado, junto com outros monitores a fazer um curso especial de magistério para poder passar para a categoria de professor. O curso foi todo montado pelo Paulo Freire, na época secretário municipal de educação da gestão Luiza Erundina. As aulas eram aos sábados, o dia todo, na escola Derville Allegretti, em Santana. Quem estava lá dando as aulas aos sábados de manhã? Ele, próprio, saindo da cadeira confortável de secretário municipal e de professor catedrático da PUC, para enfrentar um pessoal chato que só sabia reclamar de ter que ir aos sábados no curso e que estava ganhando mal. Na época eu trabalhava no Sindicato dos Químicos de Guarulhos, como assessor de imprensa, fazia frilas de jornalismo, estava iniciando o mestrado na ECA, dava aulas à noite no Educação de Adultos, mas sábado não faltava. Até hoje, como docente de ensino superior, a minha inspiração é Paulo Freire, lembro da sua insistência em dizer que a competência do professor é saber estabelecer diálogo e que isto só é possível quando você vê o outro como outro ser humano não como coisa. É sair da relação Eu-Isso para Eu-Você. Os jornalistas e comunicadores deveriam ler mais Paulo Freire e tratar o receptor como ser humano e não como uma coisa que vai se traduzir em dados estatísticos de audiência.
Mas, enquanto os projetos culturais bancados pelo capital financiam Circo Soleil, filmes inacabados de Guilherme Fontes, shows de Caetano, Instituto Fernando Henrique Cardoso e Fundação José Sarney (oh, marimbondos de foho!), teremos que esperar a abnegação de algumas pessoas para poder ter acesso digital à obra de um dos mais importantes pensadores brasileiros. Importante não só pela qualidade acadêmica da sua obra, mas principalmente pelo compromisso (demonstrado na prática e não apenas falado) com o povo brasileiro.



Escrito por Dennis às 09h05
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