Adoro jazz, mas detesto os “jazzeiros”. Adoro Marina Silva, mas detesto os “marinistas” de última hora
O jazz é uma das expressões mais fortes da luta contra o racismo dos negros norte-americanos. Foi produto de uma ação coletiva de afirmação de identidade étnica, de combate ao sistema de opressão racista dos Estados Unidos por meio da expressão cultural marcada pelas raízes africanas. Stuart Hall, no texto “Que negro é este na cultura negra?” (in: Da diáspora, Editora UFMG, 2005) ao tentar sintetizar conceitualmente a diversidade cultural negra, elenca os seguintes pontos: a-) o “estilo” tornou-se em si a matéria do acontecimento (e não apenas uma “casca” que embala o conteúdo); b) a musicalidade como estrutura profunda da vida cultural negra e c-) corpo como o único capital cultural.Adorno, no clássico texto sobre jazz e bebop, quando da sua passagem nos Estados Unidos, critica a forma de execução desta música partindo do pressuposto que a não ritualidade da execução e da fruição da mesma significava uma “não transcendentalização” (que ele conclui pela expressão corporal, corpo como antônimo de espírito) gerando o que ele chama de “escuta regressiva”. O verniz intelectual de Adorno encontrava eco nas atitudes racistas de quem não conseguia entender a expressão cultural de povos de matrizes não européias. Na verdade, manifestava um incômodo do pensamento branco racista ao perceber que os afro-americanos detinham um potencial fantástico de expressão cultural, do qual o jazz era o exemplo mais visível – a ponto de contaminar audiências em todo o mundo. A força do jazz recolocou os músicos afro-americanos, mas não diminuiu o racismo, apenas o deslocou. Muitos apreciadores de jazz pagam, com gosto, fortunas para irem ao Bourbon Street (sofisticada casa de blues e jazz em São Paulo), tomar uísque 15 anos, regozijarem com os sons dos gênios do jazz dos EUA, saírem com seus carros importados e, na primeira esquina, fugirem do primeiro menino negro que pedir uma esmola, achando que ele vai assaltá-lo. Um conhecido meu só compra CDs de jazz e blues e recusa-se a ouvir samba, dizendo que é música de “maloqueiro”, “bêbado”, etc. Charlie “Bird” Parker não entra nesta classificação porque fala inglês, já está morto, e não disputa espaço com ele, é um negro que não representa perigo – como os jazzmen que tocam no Bourbon Street também não são ameaça para a elite brasileira que, para ser chique, os aprecia. Vejo situação semelhante com a recente candidatura de Marina Silva pelo Partido Verde. De repente, as bandeiras de defesa da Amazônia passaram a ser importantes para grande parte da mídia que pouco investigaram o caso do Sivam e a política entreguista do governo passado; só trataram do caso dos seringueiros após a morte de Chico Mendes, abordam os problemas dos camponeses somente quando os conflitos exacerbam em mortes provocadas por ações da polícia ou pistoleiros e são contra as ações afirmativas. Marina Silva, mulher negra, trabalhadora, liderança dos povos da Amazônia, é uma legítima representante dos segmentos sociais excluídos, aqueles que ganham páginas dos jornais somente em casos de violência ou quando fazem passeatas e param o trânsito. Agora, a sua figura ganha simpatia da mídia, articulistas a tratam como a “novidade” na sucessão eleitoral e a sua candidatura repercute. Muitos articulistas da grande imprensa derramam simpatias. Os problemas ambientais atuais decorrem única e exclusivamente de uma “insuficiência” da política do governo atual. E quanto ao fato de ser uma mulher negra, um articulista importante chegou a comentar que Marina Silva tinha “traços caucasianos” (lembra-me aquela frase comum de brancos querendo ser amigos de negros dizendo “ah, você não é tão escuro assim”, como se fosse um elogio). Uma virada de posição ou o mesmo que ocorre com o jazz? Marina Silva é uma mulher negra, trabalhadora, guerreira, mas que, neste momento, não traz riscos para as classes hegemônicas e ainda dá um verniz de “democracia” numa sociedade marcada pela brutal concentração de renda. E ainda, apostam os articulistas, pode tirar votos da candidatura apoiada pelo atual governo. Quantos dos neo-marinistas midiáticos são de fato comprometidos com as suas bandeiras? Adoro jazz, mas detesto os “jazzeiros”. Adoro Marina Silva, mas detesto os “marinistas” de última hora.
Escrito por Dennis às 22h07
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FUTEBOL NA TV: QUANDO A PÁTRIA VIRA O ÚLTIMO REFÚGIO DOS CANALHAS
Assistir às transmissões de televisão dos jogos de futebol da seleção é um martírio pelo festival de bobagens que se fala. E ainda tem gente que acha que jornalismo é apenas uma coisa de “talento” e não de conhecimento e responsabilidade... Na terça-feira, dia 5, assisti pela TV Bandeirantes ao jogo pelas quartas de final do Mundial Sub-20, Brasil 3 x Uruguai 1, uma bela apresentação da seleção brasileira. Infelizmente os espectadores foram obrigados a ouvir o “chavão” de que os uruguaios não agüentam as jogadas de efeito dos brasileiros e, passado um tempo, começam a dar pancada. O “grande” comentarista Osmar de Oliveira ficou prevendo o momento em que os jogadores do Uruguai iriam começar a agredir os brasileiros, “irritados” com o baile que estavam tomando. Não só isto não aconteceu como a boa seleção do Uruguai pressionou o Brasil, saiu de uma desvantagem de três a zero no primeiro tempo e praticamente dominou o segundo, marcando o seu gol de honra e ainda perdendo um pênalti. E o pior é que grande comentarista não fez nenhum “mea culpa”, ofendeu os uruguaios e tudo ficou por isso mesmo. Mas as bobagens neste jogo não ficaram por aí. Não contentes em desfilar absurdos no comentário de futebol, estes rapazes ainda querem opinar sobre política (arghhhh!). O mesmo Osmar Oliveira, culto como ele é, informou que os sobrenomes terminados em “ez” dos países de fala hispânica significam filho de. Por exemplo, Fernandez, filho de Fernando; Gonzalez, filho do Gonzalo, assim por diante. Quis aproveitar o momento de uma certa lucidez para desfilar a sua bobagem: “Só não dá certo, disse ele, para o Evo Morales, ele não é filho da ‘moral’...” É mole? Agora, no domingo, na partida Brasil e Bolívia, os velhos lamentos sobre a altitude. Galvão Bueno e Luciano do Vale unificam seu “patrioteirismo” com os preconceitos explícitos contra os povos latino-americanos. Insistiram na tese de que a FIFA deveria proibir os jogos em La Paz. Em 1976, o grande time do Cruzeiro foi disputar a final do Mundial Interclubes em Munique contra o Bayern e perdeu de 2 a 0 debaixo de neve – o clima foi francamente prejudicial aos brasileiros. Alguém já fez alguma campanha contra jogos embaixo de neve? Não, porque isto acontece na “civilização européia”, o lugar onde o futebol é extremamente organizado (e onde torcedores nazistas ofendem jogadores negros, mas isto é bobagem, claro!). Em 1994, o Brasil foi tetracampeão mundial sobre a Itália jogando ao meio dia no “Rose Bowl” (um campo de futebol americano adaptado), sob um sol de mais de quarenta graus e venceu a seleção da Itália visivelmente quebrada pelo calor e pelo desgaste. Não me lembro dos comentaristas globo-bandeirantinos e demais falarem que os brasileiros tiveram vantagem. Claro, o jogo foi nas terras do Tio Sam! E o graaaaandeeee Galvão Bueno ainda disse que o Maradona defendeu a manutenção do direito da Bolívia jogar em La Paz, batendo bola com o presidente Evo Morales e fechou com esta: “A Argentina jogou aqui, tomou de seis e ele saiu reclamando!” O Maradona, em nenhum momento, reclamou da altitude de La Paz para justificar a goleada que a Argentina sofreu. Disse que foi uma “vergonha”. E quem viu o jogo do Brasil contra a Bolívia, não percebeu nenhum desgaste físico significativo que tenha comprometido o desempenho da seleção nacional. Foi muito mais desentrosamento, inclusive o gol do Brasil no segundo tempo foi um contra-ataque rápido e os jogadores da seleção nacional mantiveram o desempenho até o final do jogo, perdendo várias chances de empatar a partida. Bem, e a unanimidade da “tchurma” que o segundo gol da Argentina, marcado por Palermo, após 47 minutos do segundo tempo, estava “impedido”? O graaannndeeee Milton Neves, em seu programa na Band News chegou a lembrar o escândalo da Copa de 78 como se alguma coisa tivesse a ver com a outra. Quem ver o teipe do gol vai verificar duas coisas: 1º.) estava um dilúvio e não se enxergava nada e 2º.) após ver várias repetições, é só observar um jopgador peruano no meio da pequena área, perto da outra trave dando condições legais para o argentino Palermo marcar o segundo gol LEGALÍSSIMO!!! Tenho muito medo destas patriotadas, principalmente quando elas se sobrepõem a informação verídica, realizando uma das piores pragas do jornalismo, que é o jornalismo de campanha. Um patriotismo que combina com preconceito contra uruguaios (só sabem dar pancadas), argentinos (só roubam) e bolivianos (tem que proibir deles jogarem na altitude). Ricardo Kotscho, em artigo publicado no portal IG fala que admira Galvão Bueno : “Vitórias e derrotas ficam mais dramáticas na voz deste narrador que sabe que fala demais, mas não tem outro jeito - afinal, ele vive disso, e foi assim que se tornou o torcedor mais bem pago do Brasil.” Até onde sei, ninguém precisa torcer pela gente, o que se espera é informação de qualidade, e o que galvões, lucianos, osmares, netos e companhias belas têm brindado a audiência é um péssimo jornalismo, uma informação submetida a uma postura de torcedor que não têm sentido. Parte da esquerda brasileira tem, corretamente, defendido a soberania nacional. Só que é importante não perder de referência a célebre frase de Samuel Johnson: “a pátria é o último refúgio dos canalhas”. Esta turma da Globo, Bandeirantes e companhia bela não são aliados da soberania nacional. São oportunistas que querem ganhar em cima da paixão do torcedor brasileiro.
Escrito por Dennis às 22h03
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