Blog do DENNIS


TUCANOS USAM ATIVIDADE DA USP COMO PALANQUE

 

No dia 29 de outubro, a Pró-Reitoria de Pesquisa da USP convocou todos os professores orientadoes e alunos bolsistas para uma apresentação dos trabalhos do Programa de Pré-Iniciação Científica, a ser realizado no Centro de Convenções Rebouças. O Programa de Pré-Iniciação Científica foi uma iniciativa da USP e tinha como objetivo desenvolver atividades de científicas com alunos da rede estadual de ensino médio, previamente selecionados, sob a orientação de professores da universidade que, para isto, deveriam apresentar projetos de pesquisa.

Por achar interessante esta parceria da universidade com o ensino público, apresentei um projeto de monitoramento de periódicos alternativos no Brasil, dentro da idéia que desenvolvo na universidade de construir um método de recepção crítica e cidadão dos meios de comunicação. Fui contemplado com três bolsistas, todos alunos de uma escola pública de Cotia. Fiquei sabendo depois do valor ridículo da bolsa, R$70,00 e também que os bolsistas não teriam direito a uma cota de passe escolar, o que fazia com que praticamente toda a bolsa (ou mais) fosse consumido pelos gastos com transporte. Também fiquei sabendo que o programa era bancado por duas multinacionais, o Banco Santander e a Monsanto, a fabricante de transgênicos, empresa que a atual pró-reitora Mayana Zatz tem fortes ligações. E, finalmente, também soube depois que os alunos deveriam contar com um professor supervisor na escola de origem e que estes professores não receberam um centavo da Secretaria da Educação para tal tarefa, nem treinamento que estabelecesse qual é o seu papel.

Apesar de tudo isto, toquei a proposta. Os alunos eram fantásticos, desenvolveram as atividades da pesquisa de forma competente, mesmo com as dificuldades de deslocamento (demoravam até duas horas da escola em Cotia para a USP), o professor supervisor também era uma pessoa interessante, apesar de estar confuso pela total ausência de definição do seu papel. No final, chegamos a resultados importantes que mapeiam o processo de construção das informações de quatro periódicos alternativos no Brasil – o jornal Brasil de Fato e as revistas Fórum, Caros Amigos e Le Monde Diplomatique, isto após fazermos uma série de discussões sobre os filtros que atuam na produção da notícia, demonstrando que a mídia jornalística hegemônica atua como “um aparelho de propaganda” como define o pensador Noam Chomsky.

O que aconteceu no dia 29 de outubro? Um grande ato do PSDB. Pela manhã, lá esteve para se deixar fotografar e distribuir risos e abraços, o secretário Geraldo Alckmin – não ficou claro o papel dele como agente público neste programa. Depois, o secretário da educação, Paulo Renato, que não explicou o porquê da sua secretaria não ter feito absolutamente nada em termos de apoio a este programa. E, no final, não poderia de deixar de aparecer o governador-candidato José Serra que, junto com a pró-reitora, distribuiu a premiação aos dois melhores trabalhos de cada área. Prêmio: um laptop para cada equipe vencedora (detalhe: as equipes tinham até oito alunos bolsistas – como eles iriam dividir UM laptop não ficou claro!) e uma assinatura anual da revista da Fapesp para a escola do grupo vencedor (detalhe: esta revista está disponível na internet e é publicada por uma fundação vinculada ao próprio governo estadual). Só faltou dar como prêmio o sinal da TV Cultura por um ano...

A hipocrisia tucana não teve limites desta vez. Quase 16 anos de governos tucanos que praticamente arrasaram a educação pública estadual, salários dos professores achatados, total desprezo por este programa que foi praticamente bancado por empresas, sem qualquer preocupação em dar suporte a alunos e professores da rede para que ele reverberasse no ensino público e, no final, comparecem à festa!!! Um uso e abuso da boa vontade de professores e de alunos da escola pública que, com seu talento e capacidade, tentam furar o bloqueio imposto pelas péssimas condições do ensino público paulista.



Escrito por Dennis às 15h48
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Adoro jazz, mas detesto os “jazzeiros”. Adoro Marina Silva, mas detesto os “marinistas” de última hora

O jazz é uma das expressões mais fortes da luta contra o racismo dos negros norte-americanos. Foi produto de uma ação coletiva de afirmação de identidade étnica, de combate ao sistema de opressão racista dos Estados Unidos por meio da expressão cultural marcada pelas raízes africanas. Stuart Hall, no texto “Que negro é este na cultura negra?” (in: Da diáspora, Editora UFMG, 2005) ao tentar sintetizar conceitualmente a diversidade cultural negra, elenca os seguintes pontos: a-) o “estilo” tornou-se em si a matéria do acontecimento (e não apenas uma “casca” que embala o conteúdo); b) a musicalidade como estrutura profunda da vida cultural negra e c-) corpo como o único capital cultural.

Adorno, no clássico texto sobre jazz e bebop, quando da sua passagem nos Estados Unidos, critica a forma de execução desta música partindo do pressuposto que a não ritualidade da execução e da fruição da mesma significava uma “não transcendentalização” (que ele conclui pela expressão corporal, corpo como antônimo de espírito) gerando o que ele chama de “escuta regressiva”.

O verniz intelectual de Adorno encontrava eco nas atitudes racistas de quem não conseguia entender a expressão cultural de povos de matrizes não européias. Na verdade, manifestava um incômodo do pensamento branco racista ao perceber que os afro-americanos detinham um potencial fantástico de expressão cultural, do qual o jazz era o exemplo mais visível – a ponto de contaminar audiências em todo o mundo.

A força do jazz recolocou os músicos afro-americanos, mas não diminuiu o racismo, apenas o deslocou. Muitos apreciadores de jazz pagam, com gosto, fortunas para irem ao Bourbon Street (sofisticada casa de blues e jazz em São Paulo), tomar uísque 15 anos, regozijarem com os sons dos gênios do jazz dos EUA, saírem com seus carros importados e, na primeira esquina, fugirem do primeiro menino negro que pedir uma esmola, achando que ele vai assaltá-lo. Um conhecido meu só compra CDs de jazz e blues e recusa-se a ouvir samba, dizendo que é música de “maloqueiro”, “bêbado”, etc. Charlie “Bird” Parker não entra nesta classificação porque fala inglês, já está morto, e não disputa espaço com ele, é um negro que não representa perigo – como os jazzmen que tocam no Bourbon Street também não são ameaça para a elite brasileira que, para ser chique, os aprecia.

Vejo situação semelhante com a recente candidatura de Marina Silva pelo Partido Verde. De repente, as bandeiras de defesa da Amazônia passaram a ser importantes para grande parte da mídia que pouco investigaram o caso do Sivam e a política entreguista do governo passado; só trataram do caso dos seringueiros após a morte de Chico Mendes, abordam os problemas dos camponeses somente quando os conflitos exacerbam em mortes provocadas por ações da polícia ou pistoleiros e são contra as ações afirmativas.

Marina Silva, mulher negra, trabalhadora, liderança dos povos da Amazônia, é uma legítima representante dos segmentos sociais excluídos, aqueles que ganham páginas dos jornais somente em casos de violência ou quando fazem passeatas e param o trânsito. Agora, a sua figura ganha simpatia da mídia, articulistas a tratam como a “novidade” na sucessão eleitoral e a sua candidatura repercute. Muitos articulistas da grande imprensa derramam simpatias. Os problemas ambientais atuais decorrem única e exclusivamente de uma “insuficiência” da política do governo atual. E quanto ao fato de ser uma mulher negra, um articulista importante chegou a comentar que Marina Silva tinha “traços caucasianos” (lembra-me aquela frase comum de brancos querendo ser amigos de negros dizendo “ah, você não é tão escuro assim”, como se fosse um elogio).

Uma virada de posição ou o mesmo que ocorre com o jazz? Marina Silva é uma mulher negra, trabalhadora, guerreira, mas que, neste momento, não traz riscos para as classes hegemônicas e ainda dá um verniz de “democracia” numa sociedade marcada pela brutal concentração de renda. E ainda, apostam os articulistas, pode tirar votos da candidatura apoiada pelo atual governo.

Quantos dos neo-marinistas midiáticos são de fato comprometidos com as suas bandeiras?

Adoro jazz, mas detesto os “jazzeiros”. Adoro Marina Silva, mas detesto os “marinistas” de última hora.



Escrito por Dennis às 22h07
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FUTEBOL NA TV: QUANDO A PÁTRIA VIRA O ÚLTIMO REFÚGIO DOS CANALHAS

Assistir às transmissões de televisão dos jogos de futebol  da seleção é um martírio pelo festival de bobagens que se fala. E ainda tem gente que acha que jornalismo é apenas uma coisa de “talento” e não de conhecimento e responsabilidade...

Na terça-feira, dia 5, assisti pela TV Bandeirantes ao jogo pelas quartas de final do Mundial Sub-20, Brasil 3 x Uruguai 1, uma bela apresentação da seleção brasileira. Infelizmente os espectadores foram obrigados a ouvir o “chavão” de que os uruguaios não agüentam as jogadas de efeito dos brasileiros e, passado um tempo, começam a dar pancada. O “grande” comentarista Osmar de Oliveira ficou prevendo o momento em que os jogadores do Uruguai iriam começar a agredir os brasileiros, “irritados” com o baile que estavam tomando. Não só isto não aconteceu como a boa seleção do Uruguai pressionou o Brasil, saiu de uma desvantagem de três a zero no primeiro tempo e praticamente dominou o segundo, marcando o seu gol de honra e ainda perdendo um pênalti. E o pior é que grande comentarista não fez nenhum “mea culpa”, ofendeu os uruguaios e tudo ficou por isso mesmo.

Mas as bobagens neste jogo não ficaram por aí. Não contentes em desfilar absurdos no comentário de futebol, estes rapazes ainda querem opinar sobre política (arghhhh!). O mesmo Osmar Oliveira, culto como ele é, informou que os sobrenomes terminados em “ez” dos países de fala hispânica significam filho de. Por exemplo, Fernandez, filho de Fernando; Gonzalez, filho do Gonzalo, assim por diante. Quis aproveitar o momento de uma certa lucidez para desfilar a sua bobagem:  “Só não dá certo, disse ele, para o Evo Morales, ele não é filho da ‘moral’...” É mole?

Agora, no domingo, na partida Brasil e Bolívia, os velhos lamentos sobre a altitude. Galvão Bueno e Luciano do Vale unificam seu “patrioteirismo” com os preconceitos explícitos contra os povos latino-americanos. Insistiram na tese de que a FIFA deveria proibir os jogos em La Paz. Em 1976, o grande time do Cruzeiro foi disputar a final do Mundial Interclubes em Munique contra o Bayern e perdeu de 2 a 0 debaixo de neve – o clima foi francamente prejudicial aos brasileiros.  Alguém já fez alguma campanha contra jogos embaixo de neve? Não, porque isto acontece na “civilização européia”, o lugar onde o futebol é extremamente organizado (e onde torcedores nazistas ofendem jogadores negros, mas isto é bobagem, claro!).

Em 1994, o Brasil foi tetracampeão mundial sobre a Itália jogando ao meio dia no “Rose Bowl” (um campo de futebol americano adaptado), sob um sol de mais de quarenta graus e venceu a seleção da Itália visivelmente quebrada pelo calor e pelo desgaste. Não me lembro dos comentaristas globo-bandeirantinos e demais falarem que os brasileiros tiveram vantagem. Claro, o jogo foi nas terras do Tio Sam!

E o graaaaandeeee Galvão Bueno ainda disse que o Maradona defendeu a manutenção do direito da Bolívia jogar em La Paz, batendo bola com o presidente Evo Morales e fechou com esta: “A Argentina jogou aqui, tomou de seis e ele saiu reclamando!” O Maradona, em nenhum momento, reclamou da altitude de La Paz para justificar a goleada que a Argentina sofreu.  Disse que foi uma “vergonha”. E quem viu o jogo do Brasil contra a Bolívia, não percebeu nenhum desgaste físico significativo que tenha comprometido o desempenho da seleção nacional. Foi muito mais desentrosamento, inclusive o gol do Brasil no segundo tempo foi um contra-ataque rápido e os jogadores da seleção nacional mantiveram o desempenho até o final do jogo, perdendo várias chances de empatar a partida.

Bem, e a unanimidade da “tchurma” que o segundo gol da Argentina, marcado por Palermo, após 47 minutos do segundo tempo, estava “impedido”? O graaannndeeee Milton Neves, em seu programa na Band News chegou a lembrar o escândalo da Copa de 78 como se alguma coisa tivesse a ver com a outra. Quem ver o teipe do gol vai verificar duas coisas: 1º.) estava um dilúvio e não se enxergava nada e 2º.) após ver várias repetições, é só observar um jopgador peruano no meio da pequena área, perto da outra trave dando condições legais para o argentino Palermo marcar o segundo gol LEGALÍSSIMO!!!

Tenho muito medo destas patriotadas, principalmente quando elas se sobrepõem a informação verídica, realizando uma das piores pragas do jornalismo, que é o jornalismo de campanha. Um patriotismo que combina com preconceito contra uruguaios (só sabem dar pancadas), argentinos (só roubam) e bolivianos (tem que proibir deles jogarem na altitude).

Ricardo Kotscho, em artigo publicado no portal IG fala que admira Galvão Bueno : “Vitórias e derrotas ficam mais dramáticas na voz deste narrador que sabe que fala demais, mas não tem outro jeito -  afinal, ele vive disso, e foi assim que se tornou o torcedor mais bem pago do Brasil.” Até onde sei, ninguém precisa torcer pela gente, o que se espera é informação de qualidade, e o que galvões, lucianos, osmares, netos e companhias belas têm brindado a audiência é um péssimo jornalismo, uma informação submetida a uma postura de torcedor que não têm sentido.

Parte da esquerda brasileira tem, corretamente, defendido a soberania nacional. Só que é importante não perder de referência a célebre frase de Samuel Johnson: “a pátria é o último refúgio dos canalhas”.  Esta turma da Globo, Bandeirantes e companhia bela não são aliados da soberania nacional. São oportunistas que querem ganhar em cima da paixão do torcedor brasileiro.



Escrito por Dennis às 22h03
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O que sobra para FHC, falta para Paulo Freire

O escritor Bertolt Brecht disse certa vez: "pobre do povo que precisa de heróis". Mas, no caso do Brasil, mais pobreza ainda quando não reconhece os seus verdadeiros heróis. As tradições de povos antigos da Guiné diziam que após a morte, o único legado do ser humano é o seu nome - que simboliza a trajetória e o que foi feito na sua passagem na Terra. Aqui os nomes com significados reais são esquecidos.
Falo isto para lembrar o nome de uma das personalidades mais marcantes do Brasil: o educador Paulo Freire. Reportagem da edição desta semana da revista Carta Capital mostra que na Rua Cerro Corá, no Alto da Lapa, funciona a biblioteca do Instituto Paulo Freire que reúne todo o material deste grande educador e pensador brasileiro. Inclusive originais da grande obra de Freire, Pedagogia do Oprimido. Em tempos que se discute a importância da educação, que todos os políticos da extrema-esquerda à extrema-direita são unânimes em destacar a importância da educação, esta biblioteca recebeu no primeiro semestre deste ano, apenas 118 visitantes - e, pasmem, a metade estrangeiros.
Dirigido pelo pedagogo Moacir Gadotti, amigo de Freire, uma equipe do Instituto Paulo Freire está digitalizando a obra do grande pensador brasileiro. Problema? Falta de verbas. As mesmas verbas que são abundantes para o projeto do Instuto Fernando Henrique Cardoso que, com apoio da Lei Rouanet e da Sabesp - isto mesmo, parte das contas de água e esgoto que estamos pagando está indo para o refúgio dos tucanos paulistas - está digitalizando a obra do sociólogo-presidente-pop que escreveu "grandes obras", como aquela que "descobriu" que o Brasil se desenvolvia mantendo a dependência econômica ou aquela outra que dizia que os africanos escravizados no período da colonização não eram sujeitos capazes de mudar a situação, porque eram "objetos".
Em 1989, quando era monitor do programa de Educação de Adultos, na prefeitura de São Paulo, fui obrigado, junto com outros monitores a fazer um curso especial de magistério para poder passar para a categoria de professor. O curso foi todo montado pelo Paulo Freire, na época secretário municipal de educação da gestão Luiza Erundina. As aulas eram aos sábados, o dia todo, na escola Derville Allegretti, em Santana. Quem estava lá dando as aulas aos sábados de manhã? Ele, próprio, saindo da cadeira confortável de secretário municipal e de professor catedrático da PUC, para enfrentar um pessoal chato que só sabia reclamar de ter que ir aos sábados no curso e que estava ganhando mal. Na época eu trabalhava no Sindicato dos Químicos de Guarulhos, como assessor de imprensa, fazia frilas de jornalismo, estava iniciando o mestrado na ECA, dava aulas à noite no Educação de Adultos, mas sábado não faltava. Até hoje, como docente de ensino superior, a minha inspiração é Paulo Freire, lembro da sua insistência em dizer que a competência do professor é saber estabelecer diálogo e que isto só é possível quando você vê o outro como outro ser humano não como coisa. É sair da relação Eu-Isso para Eu-Você. Os jornalistas e comunicadores deveriam ler mais Paulo Freire e tratar o receptor como ser humano e não como uma coisa que vai se traduzir em dados estatísticos de audiência.
Mas, enquanto os projetos culturais bancados pelo capital financiam Circo Soleil, filmes inacabados de Guilherme Fontes, shows de Caetano, Instituto Fernando Henrique Cardoso e Fundação José Sarney (oh, marimbondos de foho!), teremos que esperar a abnegação de algumas pessoas para poder ter acesso digital à obra de um dos mais importantes pensadores brasileiros. Importante não só pela qualidade acadêmica da sua obra, mas principalmente pelo compromisso (demonstrado na prática e não apenas falado) com o povo brasileiro.



Escrito por Dennis às 09h05
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Kassab não tem mais o que fazer?

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, parece que não tem mais o que fazer. Depois do factóide de querer combater a "poluição visual" proibindo out-doors e gerando um enorme desemprego na área (coincidentemente, gerando também um aumento na arrecadação das propgandas internas nas estações do Metrô - alô, alô, repórteres investigativos da grande mídia, alguém vai investigar isto?) vem agora com a proibição dos fretados nas áreas nobres.

Pergunta-se:

1 - Os que andam em fretados com certeza vão vir de carro. Para cada fretado retirado, são 30 ou 40 carros a mais na cidade. Que tipo de medida é esta que visa melhorar o trânsito?

2 - Os fretados vão deixar de andar nos corredores de ônibus (que o prefeito Kassab deixou de expandir). Isto recebeu elogios dos taxistas - categoria historicamente apoiadora do malufismo e seus herdeiros em Sampa, a aliança demo-tucana.

3 - Não há nenhum projeto da prefeitura para melhoria do transporte coletivo que é a única solução adequada para o problema do trânsito da cidade. Ao contrário,  o prefeito vem demonstrando total desinteresse nisto. Os ônibus continuam lotados, demorando a passar e em péssimo estado.

 

 



Escrito por Dennis às 14h53
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Folha esconde que privatização prejudicou os mais pobres

No domingo, dia 19 de julho, o jornal “Folha de S. Paulo” publicou uma boa reportagem sobre a diferença do preço da energia elétrica que favorece as regiões mais ricas e prejudica as mais pobres. Resultado: quem ganha menos paga mais e quem ganha mais paga menos. Mais ainda: as localidades mais carentes que necessitariam de mais investimentos pouco atraem as empresas operadoras de energia elétrica.

A explicação dos economistas e mesmo de representantes de empresas é clara: é mais caro para uma empresa a operação de distribuir energia elétrica em locais com menor consumo (portanto, lugares mais carentes) do que aqueles em que há um maior adensamento e potencial de aumento de consumo. Daí que regiões metropolitanas ricas, como a de São Paulo, contam com uma tarifa proporcionalmente menor que do Maranhão, por exemplo.

Tudo certo, porém faltou algo importante na matéria da Folha: que isto é uma conseqüência da política de privatizações do governo passado. É evidente que ao transferir para a iniciativa privada a operação de um serviço essencial, como o da energia elétrica, este ficaria sob as regras do mercado e é justamente esta lógica que explica a diferença tarifária em prol dos mais abastados. Em outras palavras, ao contrário da propaganda neoliberal disseminada amplamente, principalmente pelos meios jornalísticos na era FHC, a privatização não foi boa para a população.

De forma envergonhada, parece, a matéria da Folha apresenta como alternativa o “modelo de privatização” da telefonia que obrigou as concessionárias a administrar uma região mais rica com outra mais pobre – mas quem garante que isto obrigará a empresa a investir a mesma monta na região mais pobre que potencialmente traria menos resultados? E por que a “pluralista” Folha não apresentou também a solução da estatização deste serviço ou mesmo fazer uma crítica ao modelo de privatização?

O jornalismo tem uma esfera de consenso e uma de controvérsia admitida. A controvérsia admitida na Folha de S. Paulo é aquela que não atinja o coração do modelo de Estado instituído no final dos anos 90 pela aliança PSDB/DEMO, tanto é que o destaque dado a obtenção de recursos pela Fundação Sarney via lei Rouanet não foi dado também pelo mesmo procedimento adotado pelo Instituto FHC que obteve, pelo mesmo sistema, dez vezes mais recursos, oriundos de uma estatal estadual (Sabesp) e de empresas beneficiadas pela política de terceirização e privatização da gestão demo-tucana em São Paulo, para “digitalizar a obra (importantíssima!) do sociólogo FHC” (clique aqui para ler a matéria).

 



Escrito por Dennis às 16h49
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O jornalismo provocativo de Demétrio e Augusto Nunes

Depois do jornalismo investigativo, denunciativo, declaratório, "receiver", estamos assitindo agora mais uma nova modalidade: o jornalismo provocativo. Colunistas abusam do privilégo que possuem de poder expressar publicamente sua opinião para atacar e ofender personalidades que, eventualmente, tenham posições contrárias as suas. Ao invés de estabelecer o debate por meio de argumentos, preferem desqualificar os "adversários" como se estes não tivessem o direito de ter opinião diferente. E vai algum destes decidir processar o veículo ou o colunista na Justiça: será taxado de "censor" ou "inimigo da liberdade de imprensa".

Dois exemplos recentes. O colunista Demétrio Magnolli, em coluna no jornal "O Estado de S. Paulo" na sua já cruzada contra as políticas de ação afirmativa, resolveu atacar o professor Kabengele Munanga, da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, acusando-o de "charlatanismo científico". O prof. Munanga é professor titular da USP, presidente do CEA (Centro de Estudos Africanos) da mesma universidade e autor de diversos livros, goza de reconhecimento internacional. Chamá-lo de charlatão é, no mínimo, uma leviandade.

Outro foi o jornalista Augusto Nunes, na revista Veja, famosa por este tipo de provocação. Nunes agrediu o parlamentar Flávio Dino do PC do B/MA, por discordar do projeto de lei apresentado pelo senador de regulamentação das campanhas eleitorais pela internet. O texto de Nunes resvala pelo preconceito mais absurdo associando a origem do parlamentar à idéia de que todos lá são corruptos (alusão a Sarney), sem contar pelos comentários anticomunistas mais bizarros, típicos da histeria da Guerra Fria.

Pergunto: que tipo de acréscimo ao debate público garante opinião deste tipo.



Escrito por Dennis às 20h50
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Dilma: desejo mórbido para que ela não esteja curada

A busca pelo questionamento ou um desconforto com a popularidade consolidada do governo Lula – que pode ser transferida para a sua candidata Dilma Roussef na eleição do ano que vem – ou outra coisa qualquer devem ser os motivos que expliquem a tendência mórbida, desumana e cruel na matéria publicada na Folha de S. Paulo de 26 de junho (link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2606200917.htm - para assinantes UOL ou FSP) que trata da última sessão de quimioterapia da ministra da Casa Civil em S. Paulo. O oncologista Paulo Hoff, médico do Hospital Sírio-Libanês, afirma que a doença está 90% curada e há poucas chances dela retornar, creditando o sucesso do tratamento ao fato do tumor ter sido diagnosticado cedo.

Desde a divulgação do tumor da ministra Dilma, a mídia hegemônica implantou uma discussão com caráter mórbido: se a candidata preferida do presidente Lula iria sucumbir a doença e, portanto, não poder assumir a candidatura. Ante as críticas vindas de partidários da ministra e até mesmo de personalidades do mundo político, o colunista Élio Gáspari disse que era “correto” a mídia investigar isto bem como exigia “transparência” dos petistas quanto ao assunto. Em seu rol de argumentos, Gaspari lembrou a doença de Costa e Silva que o impediu de dirigir o regime ditatorial no final dos anos 60, sendo substituído pela junta militar. Disse Gaspari que isto foi “prejudicial” a vida política do país como se Costa e Silva fosse “melhor” ou “mais democrático” que a junta militar!

Desde o início do tratamento, a ministra Dilma Roussef e os médicos que a tratam afirmam que o tumor foi diagnosticado no início e a que as chances de cura eram grandes. Pouco adiantou – a doença de Dilma continuou pautando as análises políticas dos jornais. A mídia hegemônica tomou uma ducha de água fria com a divulgação das recentes pesquisas em que a popularidade do presidente Lula bateu recordes e também o aumento da intenção de voto na ministra para presidente. Entre os fatores que contribuíram para o aumento da popularidade da ministra foi o fato dela ter divulgado a sua doença e isto ter gerando um sentimento de “comoção”, bem como um elogio a sua “transparência”.

Agora, o oncologista – que não faz parte, até última informação, do diretório do PT e é um médico que tem um nome a zelar pois faz parte de um complexo hospitalar de renome no país – diz que a ministra está 90% curada e a matéria da Folha faz um “questionamento” sobre isto, dizendo que é “muito cedo” para tal informação. Cura, ensina a matéria seguinte, é quando o paciente tem ausência de mais de cinco anos da doença. Nos termos atuais, o que Dilma tem é uma “taxa de remissão completa” de 90%, ensinam oncologistas ouvidos pelo jornal. Ótimo, fica agora para os estrategistas da oposição discutirem como enfrentar uma candidata que não está curada mas sim com “taxa de remissão completa de 90%”. Ufa, ainda tem 10% de chance, deve estar presente no inconsciente mórbido de quem não suporta a popularidade de um governo que diariamente recebe pauladas dos analistas midiáticos.

Se a Folha quer usar este preciosismo no seu texto que tal discutir o porquê da manchete de 27/06 no caderno “Dinheiro”: Nova lei de Chávez pode afetar Brasken ao invés de “Nova lei aprovada na Assembléia Nacional da Venezuela pode afetar...” – afinal de contas, a lei foi aprovada no parlamento da Venezuela e não imposta pelo presidente.



Escrito por Dennis às 12h43
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Folha de S. Paulo: o discurso da Contra-reforma a autonomia da sociedade perante a mídia hegemônica

No dia 31 de maio, o jornalista Fernando Rodrigues publicou reportagem no jornal Folha de S. Paulo sobre a estratégia de propaganda do governo federal. Capciosamente, esta reportagem foi publicada na mesma edição em que a pesquisa Data-Folha constatava o aumento da aprovação popular do presidente para 69%, o maior índice desde setembro, antes da eclosão da crise econômica. Para efeitos de comparação, no mesmo período de mandato, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tinha 19% de aprovação.

A reportagem indicava que o governo Lula aumentou o número de veículos de comunicação em que insere propaganda em 961% - eram 499 meios que recebiam propaganda oficial em 2003, hoje são 5.297 veículos. A estratégia de propaganda governamental, segundo a própria secretaria de comunicação do governo federal, foi a capilarização, isto é, reduzir a verba nos grandes veículos e direcioná-las a veículos menores e regionais. O montante de verba utilizado por Lula é quase idêntico ao do governo FHC, isto é, não houve aumento de verbas mas sim um redirecionamento das mesmas.

É evidente que os grandes meios, Folha a frente chiaram. Para não ficar claro que o problema é receber menos dinheiro do governo, criaram teses. O colunista Fernando Barros e Silva, ex-editor da Folha, chamou a política de comunicação governamental de “Bolsa-mídia”. Afirma o colunista: “... o governo promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes neste país. (...) Enquanto na superfície Lula trata de fazer a sua guerra retórica contra a ‘imprensa burguesa’ que lhe dá azia, no subsolo do poder a engrenagem montada pelo ministro Franklin Martins se encarrega de alimentar a rede de chapa branca na base de verbas publicitárias. (...) Esta mídia de cabresto que se consolidou no segundo mandato ajuda a entender e a difundir a popularidade do presidente.” (FSP de 01/06/09, pág A-2).

Menos raivoso, mas seguindo na mesma hipótese, Fernando Rodrigues comenta que o aumento da popularidade do presidente “é resultado de uma complexa estratégia de marketing. O governo brasileiro pré-PT sempre foi o maior anunciante do país. Agora, sob Lula, elevou essa condição ao paroxismo. Chega sozinho a 5.297 veículos de mídia impressa e eletrônica. O sabão em pó Omo ou políticos de oposição, por enquanto, não são páreo para Lula”. (FSP de 01/06/09, pág. A-2).

O editorial do jornal do dia 2 de junho volta a tocar no assunto quando afirma que “quanto menor o órgão de imprensa e mais afastado dos mercados competitivos, tanto mais vulnerável à dependência de anúncios estatais”. (FSP de 02/06/09, pág. A-2). O editorial, entretanto, diz que “pulverizar ou concentrar o gasto constitui só uma estratégia” e que “o absurdo está na existência desta verba para autopromoção”. Até porque o editorial traz uma informação interessante que o governo federal pouco tem aumentando os gastos com propaganda, enquanto que o governo Serra aumentou 44% a verba publicitária este ano e o prefeito municipal Gilberto Kassab, impressionantes 134%!

A consternação dos jornalistas da Folha de S. Paulo tem razão de ser por vários motivos. Primeiro, a dificuldade de atingir Lula, apesar da saraivada de críticas que são publicadas nos grandes jornais. Apostou-se que a crise iria abalar o prestígio do presidente e isto não aconteceu. Segundo, que há uma evidente mudança no comportamento da opinião pública que não se organiza mais na base dos chamados “círculos concêntricos” – os chamados “formadores de opinião” estabelecem consensos que depois são reproduzidos automaticamente pelas massas. Há uma tendência de uma autonomização das chamadas camadas periféricas. Terceiro que esta perda do monopólio da fala e do agendamento por parte destes grupos que avocaram para si a condição de formadores de opinião ou de “representantes da opinião pública” leva a posições que beira o preconceito mais explícito, sempre na idéia de que quem está fora do gueto dos formadores é corruptível ou de cabresto. A mídia regional é de cabresto porque está longe dos “mercados competitivos” (sic!). As populações destas regiões também são facilmente corrompidas e reproduzem automaticamente as opiniões da mídia regional corrompida. E os “puros” dos mercados competitivos (leiam-se a grande imprensa dos centros hegemônicos, em especial São Paulo) ficam a ver navios.

Mais: a possibilidade de amplos setores da sociedade também constituírem suas próprias mídias incomoda. Novamente o nervoso Fernando Barros e Silva: “Talvez explique (a mídia de cabresto) no novo mundo virtual o governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí”. O que pretendem o colunista e muitos outros “jornalistas” incomodados? Que o monopólio da fala, do agendamento e da emissão de opiniões pertençam a eles. O incômodo é semelhante quando Martinho Lutero traduziu a bíblia do latim para o alemão, tirando o monopólio da leitura e interpretação do clero da Igreja Católica. Os textos da Folha de S. Paulo parecem uma “Contra-reforma”.

Mas o mais grave de tudo isto é o primarismo das abordagens que limitam a análise da popularidade (ou não) de um político meramente pela propaganda – embora ela seja importante. Como se a sociedade fosse composta por cabeças ocas que reproduzem apenas aquelas mensagens que são veiculadas pela propaganda. Será que a popularidade do presidente não pode ser explicada porque efetivamente houve uma melhora no padrão de vida das classes mais subalternizadas? Os dados mostram a ascensão social das classes D e E, um aumento do consumo nestes segmentos sociais e o impacto de programas sociais nos lugares mais pobres. Propaganda pode vender imagens e sonhos mas não é suficiente para encher a barriga de quem tem fome.

 



Escrito por Dennis às 11h05
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O Aprendiz - a estetização da luta de classes

Os reality shows viraram moda na televisão. Mostram como a vida cotidiana também pode ter uma dimensão de espetáculo. E, ao espetacularizar situações cotidianas, contribui para reforçar e consolidar valores, uma ação ideológica extremamente eficiente para que determinados consensos não sejam questionados socialmente.

Não vou falar aqui do Big Brother Brasil, talvez o reality show mais comentado, até porque é transmitido pela Rede Globo. Considero-o extremamente infantil, bobo, funciona mais como um laboratório de personagens e situações que a Globo testa junto ao público para futuros usos em sua dramaturgia. Também serve como trampolim para aspirantes a personagens no mundo midiático (desde posar nua em revistas masculinas até apresentar programas de entretenimento).

Um tipo de reality-show que vem fazendo certo sucesso na mídia é o programa Aprendiz, apresentado pelo publicitário Roberto Justus. Este programa consolida a idéia de self-made-man e de homem de sucesso do seu apresentador. Na vinheta de abertura do programa, Justus aparece em uma posição deificada, com uma expressão celestial, acima de tudo, isolado como o próprio Ser supremo, condição esta legitimada pelo seu sucesso como grande executivo. É a nova forma de deificação em tempos neoliberais – uma supremacia dada não por uma beleza olímpica (como os deuses gregos) ou por uma universalidade moral (como os princípios cristãos), mas pelo sucesso.

Do alto da posição olímpica meritocrática, Justus vai proferindo suas sentenças de condenação: “está demitido”. Profere sem expressão nenhuma, sem raiva, sem emoção, sem qualquer indicador de indignação ou decepção, dentro da frieza tecnocrática que mascara relações de poder no capitalismo. No cenário midiático, as relações de poder de empregador e empregado viram um espetáculo de suspense em que a decisão do mandatário se impõe acima de qualquer dimensão humana – é o Deus do mérito falando.

Na final do Aprendiz 6,  show foi completo: a decisão foi realizada no auditório do Memorial da América Latina, com a participação de “demitidos”, num verdadeiro momento de penitência: os demitidos foram divididos nas equipes das finalistas e, antes da competição, ainda participaram de uma entrevista com o seu “algoz”, reverenciando-o, como que entendendo o porquê da punição.

Justus demonstrou ter prazer em demitir. Em diversas vezes lembrou que tem este poder. Falou que recebeu o email da mãe de uma das candidatas que disse que quando demitiu a filha dela, atingiu toda a família. Rindo, disse que pensou estar demitindo todos (pai, mãe, filha, etc.). Mais tarde, no palco, conversou com um vencedor da edição anterior do Aprendiz que se tornou sócio de um empreendimento seu e afirmou que “agora eu não posso te demitir”. O dedo em riste e a frase “está demitido” é o raio de Zeus ou o dilúvio de Deus na passagem da Arca de Noé que Justus considera ser o seu poder de Deus-mérito.

Submissos, os participantes fingem aceitar isto. Choram, lamentam, mas se submetem a este poder.

O Aprendiz ensina, de fato, como se adequar às normas de uma sociedade da ditadura do mercado. A ética da competição, do sucesso e do pretenso mérito se articula com a submissão ao poder instituído. O Aprendiz é um reality show que espetaculariza as relações de poder de trabalho. Esteticiza o que tem uma dimensão ética.



Escrito por Dennis às 12h40
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Pensamentos sobre a absolvição de Renan

Renan, a mídia e a realpolitik da esquerda

Concordo em muito com as afirmações de Paulo Henrique Amorim e outros analistas de que a absolvição de Renan foi mais uma derrota da mídia que vem atuando, com cada vez mais descaramento, como partido político conservador. Esteticamente, este partido midiático se manifesta pelo tal do jornalismo assertivo, produto da sociedade de valores líquidos, hipótese interessante do jornalista e professor Caio Túlio Costa.

O medo que tenho é que esta "derrota da mídia" seja comemorada como um trunfo das "esquerdas", medo este que comprovo ao ler certas análises (clique aqui). A derrota da mídia não pode levar-nos a eleger Renan como nosso "herói", ou que qualquer derrota da mídia é necessariamente um avanço nosso.

Entendo que esta percepção da política como um "jogo de futebol", de perde e ganha, é produto da redução da Política (com "P" maiúsculo) à realpolitik ou "politiquices" (com p minúsculo). Sinto uma tendência das forças que estão no poder hoje transformarem o que poderia configurar em um "projeto novo de estado" em um "projeto de governo" ou um programa eleitoral meramente. A preocupação com a sucessão presidencial e as eleições do próximo ano tem contaminado todo o debate político. Isto, por si só, não é uma coisa ruim, desde que não esteja dentro de uma ótica da vitória pela vitória e não a vitória eleitoral como passo para uma transformação profunda da sociedade.

Para piorar, quando vemos as práticas políticas da esquerda nos movimentos sociais em que a conquista dos aparelhos se sobrepõem a qualquer projeto de crescimento dos movimentos e avanço nas conquistas (lembro, por exemplo, os tristes episódios que marcam eleições em sindicatos de trabalhadores), não há indicadores de que, dentro do aparelho de Estado burguês, estas práticas políticas se modificarão. E com a mídia se comportando como partido político conservador, os espaços públicos para a realização da Política com "p" maiúsculo reduzem-se perigosamente.



Escrito por Dennis às 12h40
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As vaias, a classe média e a perspectiva de mudança na sociedade

A classe média em crise e a esquerda social-democrata em uma encruzilhada

Dora Kramer, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, foi muito transparente no seu comentário no dia 18 sobre as vaias ao presidente Lula na abertura dos Jogos Panamericanos: a classe média está orfã de representação política e passou a agir na base do "esperneio". Kramer, conservadora como sempre, apela aos partidos conservadores para se apresentarem como alternativas viáveis para este setor.

Mas a culpa não é da turma da direita. Há, de fato, uma crise na classe média brasileira. Uma classe que se formou na perspectiva de comprar direitos como objetos de consumo (escola privada, saúde privada, previdência privada) e que passou a agir politicamente no sentido da esfera pública garantir seus privilégios privados, nos quais se incluem estes objetos que deveriam ser garantidos como direitos.

Por isto, é uma classe que esperneia para pagar impostos e principalmente quando governantes decidem investir prioritariamente na periferia. Vide o caso da construção dos CEUs nas periferias de São Paulo pela prefeita Marta Suplicy que foram criticados pelo seu "alto custo" que foi inferior, por exemplo, a reforma da "Sala São Paulo" na Estação Júlio Prestes, espaço cultural destinado a exibição principalmente de música erudita para deleite da pequena burguesia que sonha em viver em uma capital européia.

Acontece que os recursos vão escasseando, a miséria teima em continuar existindo e diante disto fica cada vez mais difícil administrar este conflito por recursos. Por isto, há uma tendência da classe média cada vez mais ir para a extrema direita e defender propostas de cunho nazi-facista, explícita ou implicitamente. Isto explica o comportamento dos jovens da Barra da Tijuca na agressão a trabalhadora Sirley sob o argumento de que achavam que ela era uma "prostituta".

O grande dilema das esquerdas de caráter social-democrata, como o PT, é que se estreitam as possibilidades de construir uma aliança política com este segmento da classe média, mesmo aquela mais intelectualizada (vejam o crescimento de posturas preconceituosas e nazistas nas universidades, até mesmo em pessoas que se afirmam ser de esquerda, quando se trata de colocar propostas de repartir o bolo, como é, por exemplo, as propostas de cotas nas universidades ou ainda a presença de afrodescendentes no corpo docente e discente).

A esquerda precisa se repensar para se apresentar como alternativa não para todos, mas para aqueles que precisam de uma alternativa de sociedade em que a lógica da vida esteja acima da lógica do consumo.

 



Escrito por Dennis às 18h20
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Quem é realmente o responsável pela tragédia do dia 17 de julho?

A tragédia em Congonhas, os interesses privados e o modelo das agências reguladoras

A tragédia no aeroporto de Congonhas no último dia 17 foi chamada de "assassinato" por um colunista da Folha de S. Paulo que, rapidamente, apontou o seu dedo acusatório para o governo federal. Na semana, várias foram as manifestações inquisitórias para o governo federal, apontado como o único responsável pela tragédia, levantando, novamente, os ânimos dos formadores de opinião articulados com a banda da oposição ao governo federal.

A música começou a desafinar com a informação no dia 19 de que haveria falhas no sistema de frenagem do airbus. Isto traz a TAM para o centro do picadeiro. O poder privado, sempre associado a eficiência e imune a corrupção, ganha os holofotes. O poder privado, o mesmo que sustenta a maioria dos meios de comunicação de massa que cada vez mais dependem de verbas publicitárias para sobreviverem tendo em vista a dificuldade de aumentar o número de leitores ou mesmo audiência.

Outra informação, escondida nas notinhas da coluna Painel da FSP: a TAM e a Gol, as empresas que formam o duopólio que domina o mercado de transporte aéreo doméstico, praticamente dominam a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), uma das tais agências reguladoras inventadas pelo governo de FHC para que a regulamentação de setores estratégicos dominados pelo capital privado não sofresse "interferências políticas" - por isto, as tais agências são "autônomas" (do governo mas não dos interesses privados, pelo visto!).

E mais uma outra informação escondida no "Painel da Folha": as duas empresas pressionaram a Anac e a Infraero para liberarem o quanto antes a pista reformada do aeroporto de Congonhas. E mais uma outra informação: as empresas que locam jatos executivos resistem a saírem de Congonhas e operarem os jatinhos particulares a partir do Campo de Marte.

Enfim: a responsabilidade do caos em Congonhas é a ganância dos interesses corporativos, em particular das duas gigantes do transporte aéreo nacional, do formato da Anac - a tal agência reguladora criada no governo FHC para mordenizar e moralizar a gestão pública - e também do governo federal pelo fato de NÃO ENFRENTAR estes interesses privados e também não ter tomado medidas para desmontar este sistema de agências reguladoras que transferiu a gestão pública para interesses privados. Se foi crime, os culpados são muito mais do que a simples acusação leviana feito pelo colunista da Folha e por vários outros deformadores de opinião.



Escrito por Dennis às 18h08
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O poder da Globo formata até o fato!

Passeio no Rio Tietê e o poder da Rede Globo

Ontem de manhã participei junto com 25 crianças e técnicos do Projeto Alavanca, do Jardim São Remo, de um passeio pelo Rio Tietê, promoção do projeto Navega SP para conscientizar a população paulistana da necessidade de combater a poluição das águas. No site do projeto, há mais informações sobre esta iniciativa.

Mas gostaria de comentar o poder da mídia neste episódio. O barco estava marcado para sair às 9h00 embaixo da Ponte dos Remédios. Chegamos no horário com a turma do Alavanca e lá já se encontravam repórteres da Rede TV, BBC, TV JB e Folha de S. Paulo. Demoramos ainda quase 30 minutos para... esperar a chegada da reportagem da Rede Globo que estava atrasada! Não contente com o atraso, a equipe da todo-poderosa Globo ainda pediu para o pessoal sair do barco e entrar de novo para eles fazerem a tomada de imagens.

O barco saiu atrasado e, por isto, teve o seu passeio encurtado. Normalmente, ele vai até a Ponte do Piqueri e retorna, mas neste dia foi até a Ponte do Anhangüera. Mas o coordenador do passeio, ao explicar os motivos do passeio mais curto para o repórter da Globo (o atraso - que foi motivado pela própria Globo) ainda perguntou se eles precisariam de que o passeio continuasse para tomar mais imagens! É isto mesmo, tanto o atraso no início como a possibilidade do passeio continuar dependiam do interesse da... Globo!!! Os demais membros do passeio e jornalistas não foram consultados sobre esta possibilidade.

O poder da Globo transcende a relação com o telespectador. Ele se capilarizou de tal forma que a própria sociedade produz as informações já no formato global. Já não é mais o jornalista que corre atrás da informação, é a informação que se modela no desejo do jornalista da Globo.



Escrito por Dennis às 16h08
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Por que as esquerdas insistem no discurso universalista?

Diversidade cultural é tema de discussão na USP

Ontem, o Celacc (Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação), instituição que sou o atual coordenador, realizou um importante debate sobre políticas públicas para a cultura - novos desafios, no auditório do Museu de Arte Contemporânea (MAC) na USP. Estavam na mesa Fábio Fornazari, do Ministério da Cultura; Patrícia Rodrigues, da Secretaria Estadual da Cultura; José Roberto Sadek, secretário-adjunto da Cultura de São Paulo; Walter Malta, presidente da Rede Brasil de Gestores Culturais e Henrique Flory, da Editora Arte & Ciência. O evento foi organizado pelos alunos da Turma B do curso de Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos, do Celacc, sob a supervisão do professor Moisés dos Santos. Fui agraciado com a tarefa de mediar a mesa.

O debate foi bem interessante e expressou alguns dilemas contemporâneos da concepção de cultura e política cultural. Primeiro, a idéia de cultura restrita aos eventos e projetos ou o sentido lato de cultura como direito humano. Segundo, a concepção de política cultural com o Estado promotor, indutor ou mero fiscalizador do mercado cultural. E, finalmente, as relações entre iniciativa privada, pública, promotores e gestores culturais.

A concepção de cultura como um direito humano está expressa na formulação adotada pela Unesco dos DESCs (Direitos Econômicos, Sociais e Culturais) que, em contraponto com a noção clássica de Direitos do Homem amplia a noção de humanização para o direito de expressar a diversidade e a diferença.

Sendo assim, cultura não é um conjunto de bens simbólicos que socialmente seriam legitimados como "culturais" ou não, mas sim uma forma de expressar concepções distintas de humanidade. É um contraponto à noção clássica de universalidade do ser humano, expressa na noção iluminista de direitos humanos, universalidade esta que já externou suas crises, em especial com o ressurgimento de tendências nazi-facistas, em particular no centro do capitalismo global.

Mais ainda o crescimento de movimentos reivindicatórios de grupos minorizados (étnicos, gênero, religiosos, entre outros) e a visibilidade cada vez maior destas diferenças coloca a sociedade cada vez mais na encruzilhada de pensar projetos alternativos dentro de uma realidade de diversidade ou caminhar para um discurso nazista de apartação. As perspectivas políticas universalistas, fundadas em uma concepção iluminista, cada vez mais se incapacitam para apresentar respostas a estas demandas.

Por isto, a discussão de concepções de cultura é uma agenda importante para a reflexão da sociedade contemporânea. É uma pena que as esquerdas brasileiras ainda não acordaram para esta temática e insistem ainda em um discurso velho, desconectado da realidade e que, por esta razão, tenta se sustentar em ações da realpolitik, principalmente quando estas esquerdas conquistam espaços no aparelho de Estado capitalista.



Escrito por Dennis às 15h45
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